sexta-feira, 6 de março de 2015

Sete Minutos Depois da Meia-Noite, Patrick Ness [Opinião]




Título Original: A Monster Calls
Autoria: Patrick Ness
Editora: Editorial Presença
Colecção: Diversos Infantis e Juvenis, N.º 283
N.º Páginas: 216


Sinopse:
Passava pouco da meia-noite quando o monstro apareceu.
Inspirado numa ideia original da escritora Siobhan Dowd, que morreu de cancro em 2007, Patrick Ness criou uma história de uma beleza tocante, que aborda verdades dolorosas com elegância e profundidade, sem nunca perder de vista a esperança no futuro. Fala-nos dos sentimentos de perda, medo e solidão e também da coragem e da compaixão necessárias para os ultrapassar. Fantasia e realidade misturam-se num livro de excepção, com ilustrações soberbas que complementam a expandem a beleza do texto.


Opinião:
Não existem palavras para descrever este livro. Palavras que evoquem a complexidade emocional, as mensagens fortíssimas e a magia contida na mistura do sobrenatural com o real que este livro oferece. Não existem palavras que elogiem a escrita maravilhosa de Patrick Ness, nem a sua inteligência narrativa. Não existem palavras que mostrem o quão rica esta obra é, rica em ensinamentos, em recordações, em reflexões. Simplesmente não existem palavras...

Sete Minutos Depois da Meia-Noite é como uma versão um pouco mais ligeira, menos madura e expressamente crua, do que é para uma criança de treze anos lidar com a morte iminente de um parente devido a uma doença grave. Conor pode ter idade de menino, mas as circunstâncias do seu passado próximo e do seu presente e futuro moldaram a sua personalidade e comportamento, pelo que de menino apresenta já muito pouco. Em acréscimo tem de se conformar com uma ausência paterna, e com uma conduta estrita e rigorosa por parte da sua avó. Mas é então que aparece o monstro. O monstro que sorrateiramente se chega por trás, ou que bruscamente o confronta do outro lado do vidro, sempre sete minutos depois da meia-noite. Este monstro, que promete deixar Conor a tremer de medo pelo fim desta narrativa, diz que foi chamado para lhe contar três histórias. Mas caberá a Conor, no final, contar a quarta. E a quarta história é a pior de todas, pois é a história da verdade – da sua verdade.

Todo e cada elemento presente nesta obra e criado por Patrick Ness, inspirado na ideia original de Siobhan Dowd, perfazem deste livro algo absolutamente único e deveras especial. A começar pelas personagens e terminando no enredo em si, passando pelo tom lírico e fluido da sua escrita e pelas ilustrações extraordinariamente obscuras e cruas de Jim Kay, tudo tem um sentido profundo e uma mensagem emotiva, que visa alertar para a complexidade psicológica e sentimental que a possível morte de alguém que se ama pode originar.
Conor é uma personagem magnífica. A sua postura face a impossibilidade da sua mãe em melhor tomar conta de si, em lhe fazer o pequeno-almoço ou o levar à escola é de se louvar para uma criança de treze anos. A sua personalidade é forte, convicta na resolução permanente que o próximo tratamento trará, e na normalidade que virá depois. Mas por baixo de tão robusta pele bate um coração enorme, um coração que nem sempre sente aquilo que a sua mente lhe diz para sentir, um coração que acredita necessitar de castigo, pois a verdade que o consome não poderia ser mais cruel.

Também as personagens secundárias são de um carisma muito particular. A mãe de Conor pode não ser uma presença tão assídua quanto o nosso protagonista ou o monstro que o tormenta, mas a sua luta e o seu espírito sofredor estão sempre presentes. O mesmo acontece com o pai de Conor que, quero eu acreditar, sofre a doença da mulher que uma vez amou de uma forma muito pessoal e que quase exige um comportamento drástico. A avó de Conor padece, em igual medida. A sua personalidade pode ser inflexível e até um pouco exigente e severa mas se há algo que Sete Minutos Depois da Meia-Noite mostra na perfeição é as diferentes formas com que cada pessoa lida com a dor da perda. Por fim temos o monstro... o monstro que somente é chamado em caso de necessidade extrema, o monstro que conta três histórias a Conor que visam abrir-lhe os olhos para as pessoas que tem em seu redor, o monstro que poderá não ser, de todo, um monstro...

É-me muito difícil expressar com exactidão o quanto adorei este livro. Simplesmente não existem palavras. Será, muito possivelmente para sempre, uma figura especial e de destaque na minha estante, pois tudo no seu interior é de uma intensidade, pormenor e ao mesmo tempo crueza pura. Sete Minutos Depois da Meia-Noite é daquele tipo de livros que oferece muito mais ao leitor do que aquilo que este primeiramente espera, e que acaba por ser muito mais maduro e adulto do que o pensado. As mensagens estão todas lá, por vezes abertamente, por vezes nas entre as linhas, por vezes na impiedade bela das ilustrações. Mensagens que falam de medo, de vitórias e derrotas, de dor, de conformidades forçadas e de desejos que embora bárbaros têm como objectivo um bem maior. A reviravolta final foi como um murro no estômago. É verdade que se torna, muito rapidamente, obvio o desfecho para o qual a história caminha, mas nada poderá preparar o leitor, até mesmo mais experiente, para a verdade que o monstro busca de Conor, para a verdade que assombra este menino que não é menino com o pior dos pesadelos. Um livro magnífico, e um dos favoritos do ano — disso não me restam dúvidas.

Para mais informações ou adquirir Sete Minutos Depois da Meia-Noite, visite aqui.

1 comentário:

Rosana Maia disse...

Olá :)

Gostei muito de ler a tua opinião! É uma opinião que faz de facto acrescentar um livro à nossa listinha de livros a ler!
Não há palavras, mas as que houve chegaram :).

Beijinhos,
Rosana

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