quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Mentiras, Michael Grant [Opinião]




Título Original: Lies
Autoria: Michael Grant
Editora: Planeta Manuscrito
Nº. Páginas: 336
Tradução: Victor Antunes


Sinopse:

Sete meses passaram desde que todos os adultos desapareceram da ZRJ (abreviatura de Zona Reactiva Juvenil).
Tudo agora vai acontecer numa só noite.
Uma rapariga que tinha morrido circula agora entre os vivos. Zil e o Bando dos Humanos incendeiam Perdido Beach; entre o fumo e as chamas, Sam entrevê a silhueta da pessoa que mais teme: Drake.
Mas Drake morreu. Sam e Caine venceram-no, assim como à Sombra. Pelo menos assim pensavam.
Enquanto Perdido Beach arde, a batalha também está acesa: Astrid contra o conselho municipal; o Bando dos Humanos contra os mutantes; e Sam contra Drake, regressado do reino dos mortos e desejoso de acabar com aquilo que ele e Sam deixaram por concluir.
Entretanto, e à semelhança do próprio fogo, há boatos que alastram, espalhados pela Profetisa, Orsay, e pela sua companheira, Nerezza. Afirmam que a morte é um meio de fugir da ZRJ.
As condições são piores do que nunca, e os jovens estão desesperados por sair.
Mas estarão suficientemente desesperados para acreditarem que a morte os poderá libertar?


Opinião:

A possibilidade de sobrevivência pode ser uma incerteza constante, mas enquanto a vontade persistir, qualquer problema, qualquer situação inesperada e aparentemente impossível de solucionar será tratada com toda a força, toda a garra essencial à subsistência numa terra que de alegria, de segurança e de amor, pouco tem a oferecer.
O medo é uma sensação certa, recorrente, palpável no ar, mas a união e o desejo de se ser melhor, de se ser mais, de se ajudar e de lutar, será o ponto chave que poderá, ou não, mudar o rumo altamente destrutivo e violento que se aproxima, vindo de um futuro muito, muito próximo.

Mentiras trata-se de um romance do fantástico e da ficção científica que aloja em si a agressiva, a extraordinária capacidade de não só impressionar o seu leitor como, e acima de tudo, surpreender a cada página lida onde um enredo, repleto de potencial, atinge calamidades tais que o fôlego é cortado e a pele fica completamente arrepiada.
Michael Grant pode não ser um escritor de grandes descrições, mas a verdade é que até as pequenas notas, frases soltas aqui e ali, são suficientemente precisas, correctas e exigentes ao ponto de, também elas, se tornarem afectáveis. Quanto aos diálogos, e às emoções, não há como esconder, não há como fugir. Sentindo tudo à mais leve brisa, à flor da pele, o autor consegue o feito de conjugar todas as componentes narrativas de forma exímia e bastante perturbável, o que contribui para o seu enorme sucesso.

Numa obra feita de pequenas grandes personagens, estas permanecem como um dos pontos focais, mais importantes e comoventes, não só deste livro em particular como de toda a série. Cada vez mais torna-se impossível, altamente improvável, eleger somente um ou dois intervenientes como aqueles que sofreram, enfrentaram ou lutaram as maiores e mais compactáveis, complexas batalhas, pois a verdade é que todos eles, no seu conjunto, são especiais, são únicos, são... valorizados. Até aquela presença quase insignificante, quase invisível pode ser o catalisador preciso numa ou noutra dada situação, e é esta reverência, esta atenção dada às personagens, por parte de Grant, que permite ao leitor emocionar-se e arrepiar-se com tudo o que de desumano, de desastroso e desesperante se passa na ZRJ, e no que a rodeia.

O cenário continua inconstante, instável, sofredor. As perseguições mantém-se, o Bando dos Humanos teima na sua demanda de erradicar todos os anormais, todos aqueles que detém, em si, o poder de algo brilhante e incompreensível, os mortos erguem-se das suas sepulturas e vagueiam arduamente pelos sinuosos caminhos da vingança, e até aquelas amizades profundas, extremamente carecidas, exigidas, reclamáveis, sofrem alterações, danos que poderão ser fatais.
Não restam dúvidas de que Grant criou, com esta série, uma história onde os rodeios, os floreados, são prontamente colocados de parte. A escrita é rigorosa, destorcida, provocadora. O leitor não tem outra solução que não a de seguir as inúmeras acções presentes ao longo da trama, insuportavelmente sequioso por uma resposta, por uma réstia de esperança, uma pequena, mesmo ínfima, luz ao fundo do túnel. E é esta impotência, esta fraqueza, esta impossibilidade de nós, enquanto meros espectadores, alterarmos o rumo da história, que torna a leitura viciante.

Uma grande aposta por parte da Planeta Manuscrito, numa série que não só tem todos os ingredientes certos para se transformar num inabalável sucesso, como também possui em si o dom de agradar a um vasto e diversificado leque de leitores. É que o facto de retratar a vivência e os problemas de um grupo de crianças e adolescentes, não é motivo nem razão para que um público mais adulto coloque os livros de lado... aliás, estas são personagens maduras, que se viram obrigadas a crescer quando deveriam de estar a passar os melhores anos das suas vidas. Gostei.

6 comentários:

Zaahirah disse...

Vai ser a minha próxima leitura. Já está na estante à espera que eu acabe de ler o 3o dos jogos da fome.

Por acaso acho estranho que considerem a saga dos desaparecidos como literatura infanto-juvenil. Tenho estômago forte e sou fã de filmes de terror, mas as partes em que os miúdos se matam uns outros, se exploram ou matam gatos para sobreviver leva-me a pensar que de infantil não tem nada. As crianças não têm maturidade para isto.

Anyway... Adoro a história! ^^

Pedacinho Literário disse...

Estou completamente de acordo contigo, Zaahirah! De infantil e, até juvenil, pouco ou nada vejo nesta série. Mas sabes, penso que a categorizam assim devido à idade dos protagonistas, ainda que a mentalidade dos mesmos esteja a anos luz de distância! Por isso é que acho importante frisar que este – e os outros – é um livro que pode e deve ser lido por adultos. Eu sou facilmente impressionável e estes livros fazem-me arrepiar toda!
«Os Jogos da Fome» é muito bom! Ainda só li o primeiro... mas espero pegar nos seguintes muito em breve. :D

Arttemizza Lia disse...

Agora é que fiquei mesmo com vontade de ler a serie.

Pedacinho Literário disse...

Olá, Arttemizza
Obrigada pelo comentário! Fico muito contente em saber que espicacei ainda mais a tua curiosidade. :) A série é extremamente interessante, com um conceito inovador e... bastante arrepiante. Espero que gostes!

Maria disse...

Ola! Tenho 15 anos e acabei agora mesmo de ler o 'Desaparecidos' e já encomendei o volume seguinte 'Fome'. Estou completamente fascinada com o primeiro e acho que será irresistível continuar a ler esta serie até ao final, é simplesmente cativante e o perigo e incerteza deixa-nos ainda com mais vontade de ler ler e ler. A escrita de Grant é imprevisível e de forma concisa e direta ele fascina-nos e nunca mostra o que virá a seguir, é fantástico.
Disseram acima que o livro não era apropriado para a minha idade, pois eu não concordo! Era de uma revolução assim que estava a precisar a categoria de livros juvenis. Um abraço!!

Pedacinho Literário disse...

Olá, Maria =)
Deixa-me muito contente encontrar uma leitora tão jovem e tão entusiasmada! Quanto ao que referes, pessoalmente, acredito que é um livro muito violento e pouco próprio para idades tão jovens, mas, claro, a mentalidade conta e muito e, por isso, acredito em igual força que existem jovens – como tu – que conseguem distinguir a ficção da realidade. Espero que desfrutes ainda mais de FOME.
Um beijinho,
Patrícia

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